18.4.12

Palavras #245 a 247

procrastinar - (latim procrastino, -are) v. tr. 1. Deixar para depois. = ADIAR, POSTERGAR, PROTRAIR ≠ ANTECIPAR v. intr. 2. Usar de delongas. = DELONGAR, DEMORAR, POSTERGAR ≠ ABREVIAR, ACELERAR, DESPACHAR-SE
gelosia - (italiano gelosia) s. f.s 1. Grade de fasquias de madeira que se coloca no vão de janelas ou portas, para proteger da luz e do calor, e através da qual se pode ver sem ser visto. = ADUFA, RÓTULA 2. Estrutura para fechar janela, porta ou varanda através de uma espécie de grade de malha fina que permite iluminação parcial e arejamento (ex.: gelosia de pedra). 3. Persiana que pode ser enrolada no topo. = VENEZIANA
repeso -  s. m. 1. Ato de repesar. 2. Lugar onde se repesa. adj. 3. Arrependido.

in Frankenstein, Mary Shelley

17.4.12

Frankenstein, Mary Shelley

Esta foi uma das minhas leituras obrigatórias na cadeira de Literatura Inglesa na faculdade. Foi igualmente uma das minhas favoritas, pois, como deveria ser apanágio das obras literárias, me fez refletir sobre a paternidade, a responsabilidade da criação e educação, e sobre a clonagem, na altura muito em voga por causa da ovelha Dolly. Exatamente por ter gostado tanto, e por ter cristalizado algumas opiniões e reflexões, fiquei surpreendida ao ler novamente este livro. Não é que a minha interpretação e opiniões se tivessem alterado, apenas me dei conta que já não recordava quase pormenores nenhuns sobre o enredo da mesma. Ou seja, retive as “lições”, mas esqueci por completo o modo como as adquiri. Assim, foi renovado interesse que observei elementos da construção do enredo (cartas, divisão em capítulos e volumes, as descrições paisagísticas, os elementos exóticos) e o modo como estes refletem a literatura e temas da época. Foi uma (re)leitura interessante.

Um homem tem que viver, Fernando Assis Pacheco

Um homem tem que viver.E tu vê lá não te fiques
-- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz -- como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precaridade de todos os nomes)
o começo apenas.

in A Musa Irregular

16.4.12

Palavras #242 a 244

cerce - adv. 1. Rente; rente com o chão; pela raiz. adj. 2 g. 2. [Náutica] Diz-se da proa talhada a prumo.
inácia - (talvez de Inácia, antropónimo.) s. f. [Brasil, Informal] [Marinha] Norma ou regulamento.
hemiplegia - (hemi- + -plegia) s. f. [Medicina] Paralisia de um dos lados do corpo.

VOCÊ TEM OS AMANTES, Leonard Cohen

Você tem os amantes
Eles não têm nome, suas histórias só eles sabem
Você tem o quarto, a cama e as janelas.
Finja que é um ritual.
Desembrulhe a cama, enterre os amantes, escureça as janelas,
deixe-os viver na casa por uma geração ou duas.
Ninguém ousa perturbá-los.
Visitantes no corredor andam na ponta dos pés diante da porta trancada,
tentando ouvir ruídos, algum gemido, uma canção:
nada é ouvido, nem mesmo a respiração.
Você sabe que eles não estão mortos,
você sente a presença de seu amor intenso.
Seus filhos crescem, saem de casa,
tornam-se soldados e cavaleiros.
Seu par morre depois de uma vida dedicada ao trabalho.
Quem te conhece? Quem lembra de você?
Mas na sua casa o ritual está em andamento:
Não acabou: é preciso mais gente.
Um dia abre-se a porta para o aposento dos amantes.
O quarto virou um denso jardim,
cheio de cores, cheiros, sons dos quais você nunca teve conhecimento.
A cama está suave como uma hóstia de luz,
solitária em meio ao jardim.
Na cama os amantes, lenta, deliberada e silenciosamente,
fazem amor.
Seus olhos estão fechados,
tão fortemente como se pesadas moedas de carne pousassem sobre eles.
Seus lábios estão machucados por novas e velhas feridas.
O cabelo dela e a barba dele estão completamente entrelaçados.
Quando ele encosta a boca no ombro dela,
não há como saber se o ombro
deu ou recebeu um beijo.
Toda sua carne é como uma boca.
Ele alisa com os dedos a cintura dela
e sente a própria cintura ser acariciada.
Ela o aperta bem forte e os braços dele a enlaçam.
Ela beija a mão ao lado de sua boca.
É sua própria mão ou a dele, não importa,
há muito mais beijos.
Você fica ao lado da cama, chorando de felicidade,
você descola cuidadosamente os lençóis
dos corpos em câmara lenta.
Com os olhos cheios de lágrimas, você mal distingue os amantes.
À medida em que se despe, você canta, e sua voz é magnífica,
porque agora você sabe que é a primeira voz humana
a soar naquele quarto.
As peças de roupa caem e se transformam em vinhas.
Você sobe na cama e recupera a carne.
Você fecha os olhos e permite que eles sejam costurados.
Você cria uma abraço e se deixa levar por ele.
Há um momento de dor ou dúvida
enquanto você tenta imaginar quantas multidões deitam ao seu lado,
mas uma boca beija e uma mão conforta e afasta esse momento.

Tradução de Daniel Benevides (with a little help from Luiza Franco)



15.4.12

Palavras #239 a 241

ataxia - (cs) s. f. 1. Incoordenação patológica dos movimentos do corpo. 2. Desordem nos fenómenos.fenômenos psicológicos.
sículo - adj. 1. Relativo ou pertencente à Sicília. s. m.2. Natural da Sicília. sículos s. m. pl. 3. Antigo povo das margens do Tibre.
infrene - adj. 2 g. Desenfreado, desordenado; sem freio (moral).

Je suis comme je suis, Jacques Prévert

Je suis comme ça
Quand j’ai envie de rir
Oui je ris aux éclats
J’aime celui qui m’aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n’est pas le même
Que j’aime chaque fois
Je suis faite comm ça
Que voulez-vous de plus
Que voulez-vous de moi

Je suis faite pour plaire
Et n’y puis rien changer
Mes talons sont trops hauts
Ma taille trop cambrée
Mes seins beaucoup trop durs
Et mes yeux trop cernés
Et puis après
Qu’est-ce que ça peut vous faire
Je suis comme je suis
Je suis à qui me plais

Qu’est-ce que ça peut vous faire
Ce qui m’est arrivé
Oui j’ai aimé quelqu’un
Oui quelqu’un m’a aimée
Comme les enfants qui s’aiment
Simplement savent aimer
Aimer aimer…Pourquoi me questionerJ
e suis là pour vous plaire
Et n’y puis rien changer.

Paroles

14.4.12

SER, Ondjaki

seja ruído
seja beijo
seja voo
seja andorinha
seja lago
seja pacatez da árvore
seja aterragem de borboleta
seja mármore de elefante
seja alma de gaivota
seja luz num olhar
seja um cardume de tardes
e grite: JÁ SOU.

101 poetas: Iniciação à poesia em língua portuguesa.






delinear um plano estratégico


nem todos somos capazes de olhar o futuro e traçar metas de concretização. Quantos de nós olhamos ao redor das nossas atuais situações e projetamos mais além? Mas num período instável e de recessão económica, infelizmente, temos de acautelar determinadas situações e essas passam por manter uma perspetiva sobre novas possibilidades e por delinear metas a atingir, e os seus períodos de concretização.
A quanto tempo devemos definir os nossos planos? Há quem o faça a 10 anos, o que para mim é um período tão extenso que não consigo ter uma imagem de mim tão longe no tempo. No entanto, 3 anos parece-me um período bastante razoável, não demasiado longo que se torne abstrato, nem demasiado curto que só permita delinear objetivos de curto prazo.
É claro que existem imponderáveis, mas esses eventuais tropeços não impedem que delineemos objetivos, que até podem muito bem ser a nossa tábua de salvação em caso colapso.  
Em termos organizacionais, 3 anos pode até ser um período demasiado curto ppara se ponderar. Não é à toa que, por exemplo, na política, os mandatos sejam de 4 ou 5 anos. É que além de idealizar objetivos, é também necessário tempo para proceder à sua concretização ou implementação, dependendo da dimensão dos mesmos.

13.4.12

VIDA TODA LINGUAGEM, Mário Faustino

Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias.
Vida toda linguagem –
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
E deus talvez, e nada
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, con-
[tra a chuva,
tenta fazê-la enterna – com se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.

Cotovia, Deszo Kosztolanyi

Este é daqueles livros ao qual não teria chegado se não fosse por intermédio de um Clube de Leitura, neste caso do Museu Ferreira de Castro, e foi uma agradável descoberta. Escrito na década de 20 do século passado, retrata uma semana na vida de uma família húngara no final do século 19.
A vida desta família, constituída pelo casal e uma filha, é condicionada pelo fato da sua única filha, aos 35 anos, se manter solteira e, devido à sua feiura, serem nulas as hipóteses de casar. Mas, durante uma semana, os seus hábitos são alterados pela viagem de Cotovia, a filha, a casa de familiares. Durante esse período, os pais usufruem de uma inusitada liberdade e o autor proporciona-nos, de modo simples e irónico, algumas reflexões sobre o peso das perspetivas familiares e das expetativas sociais, do papel da mulher e dos “velhos”, de dinâmicas familiares, do vazio e da possibilidade de mudança.

12.4.12

Procurado (2008)


É inquestionável o impato de MAtrix na história do cinema, pelas influências que deixou em produções subsequentes, mesmo em géneros que não a ficção cientifica. É o caso deste Procurado, que funde a estética de movimento de MAtrix, o thriller de espionagem e o western. O que fica é uma miscelânea anedótica que vale apenas pelos nomes de cartaz e como veículo de promoção da versatilidade de James McAvoy.

Título original: Wanted * Realização: Timur Bekmambetov * Argumento: Michael Brandt e Derek Haas * Elenco: Angelina Jolie, James McAvoy, Terence Stamp Morgan Freeman

BEM NO FUNDO:, Paulo Leminski

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

11.4.12

SÃO AS MULHERES QUE, Bénédicte Houart


são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia

Bénédicte Houart, julho de 2010 © Bénédicte Houart; poema inédito, traduzido no portal «Poems from the Portuguesese» (D.R.)




Gracmor


As minhas várias deambulações internauticas permitiram-me ficar a conhecer o trabalho do pintor mexicano Gracmor, cujo estilo aprecio devido à sua utilização da cor, das linhas estilizadas e do preto como elemento a lembrar o vitral. Recomendo a visita ao seu blogue, para melhor conhecerem o seu trabalho:

Vida e Cor, Gracmor

10.4.12

ALGUNS GOSTAM DE POESIA, Wisława Szymborska

Yulia Gorodinski
Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve,
e os próprios poetas
serão talvez dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.



Identidade Secreta (2011)


Se aparentemente a saga Jason Bourne já deu o que tinha a dar, eis que surge este Abduction, cujo título em português é homónimo ao primeiro episódio da saga Bourne, e cujo enredo ironiza exatamente com as parecenças físicas entre Taylor Lautner e Matt Damon. E como já havia vaticinado, este poderá muito bem ser o Bourne Pregnancy.
A história é simples: um jovem encontra uma fotografia sua num site de crianças desaparecidas e descobre que a sua vida tem mais que se lhe diga. Afinal, os seus pais biológicos são agentes infiltrados da CIA e, por isso, a sua vida corre perigo. Juntamente com a namorada, vai sobreviver a ataques inusitados, fazendo uso da sua formação desportista, e quase conhecer o seu pai, ajudando, pelo meio, a desvendar a toupeira existente na CIA. O final fica em aberto para novas aventuras, especialmente dedicadas a fãs das aventuras vampíricas de Lautner.

Título original: Abduction * Realização: John Singleton * Argumento: Shawn Christensen * Elenco: Taylor Lautner, Lily Collins, Maria Bello, Sigourney Weaver e Alfred Molina

9.4.12

Era manhã de setembro, Carlos Drummond Andrade

De Immitatie, Eddy Stevens
Era manhã de setembro
e
ela me beijava o membro

Aviões e nuvens passavam
coros negros rebramiam
ela me beijava o membro

O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruzados floriam junto

Ela me beijava o membro

Um passarinho cantava,
bem dentro da árvore, dentro
da terra, de mim, da morte

Morte e primavera em rama
disputavam-se a água clara
água que dobrava a sede

Ela me beijando o membro

Tudo o que eu tivera sido
quanto me fora defeso
já não formava sentido

Somente rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama

Ela a me beijar o membro

Dos beijos era o mais casto
na pureza despojada
que é própria das coisas dadas

Nem era preito de escrava
enrodilhada na sombra
mas presente de rainha

tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio

como beijara uma santa
no mais divino transporte
e num solene arrepio

beijava beijava o membro

Pensando nos outros homens
eu tinha pena de todos
aprisionados no mundo

Meu império se estendia
por toda a praia deserta
e a cada sentido alerta

Ela me beijava o membro

O capítulo do ser
o mistério de existir
o desencontro de amar

eram tudo ondas caladas
morrendo num cais longínquo
e uma cidade se erguia

radiante de pedrarias
e de ódios apaziguados
e o espasmo vinha na brisa

para consigo furtar-me
se antes não me desfolhava
como um cabelo se alisa

e me tornava disperso
todo em circulos concêntricos
na fumaça do universo

Beijava o membro
beijava
e se morria beijando
a renascer em setembro

Imortais (2011)


Este filme é uma adaptação feita pela equipa que produziu 300 de alguns episódios e personagens da mitologia grega sintetizados na figura de Teseo e do seu combate contra o rei Hipérion.
Teseu é um humilde lavrador escolhido por Zeus, que sob disfarce é seu mentor, para defender o povo grego do ataque do rei Hipérion, que pretende destruir a humanidade através da libertação dos titãs, raça de antigas divindades, aprisionada no mundo subterrâneo sob o Monte Tártaro. Com um visual gráfico próximo de 300, apresenta um enredo coerente, embora não fiel aos relatos míticos existentes, o que resulta num filme interessante e num bom produto de entertenimento.

Título original: Immortals * Realização: Tarsem Singh * Argumento: Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides * Elenco: Henry Cavill, Mickey Rourke, Stephen Dorff, Freida Pinto, Luke Evans e John Hurt

8.4.12

COM UNHAS E DENTES, Luís Filipe Parrado

Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.